https://youtu.be/hsoxLXy5x2I?si=WCBAxKK9TjETjfe1
Eu estava assistindo a uma entrevista onde o entrevistado era Tom Jobim. Parecia um monólogo. Vídeo curto, um recorte de algo mais longo, no qual ele tecia comentários sobre Villa-Lobos, mencionando histórias de pessoas pouco informadas sobre Villa, que afirmavam que este seria comunista. Uma dessas histórias contadas por Tom, que você somente alcançaria sobre o que se tratava se já estivesse bem contextualizado sobre outras histórias desses personagens do mundo musical.
Eles, Tom Jobim, Chico e outros, são assim. A conversa entre eles, para quem está de fora, parece codificada. Eles falam, cantam um verso, fazem referência a casos que apenas eles conhecem - riem juntos; mas você não compreende bem, embora se fixe a levar pela conversa e até dê boas gargalhadas, sozinho.
A exemplo de quando Tom foi detido pela política autoritária Getulista: “Dr. Delegado, o senhor está enganado sobre mim. A carceragem não se adequa muito à minha pessoa; eu sou mais afeito a um ar refrigerado, um bom uísque, um cubano e ao porcelanato… Além do mais, Doutor, eu não sou comunista, mas pianista!”
Pois é, ao final, ele generosamente resumia tudo em uma única frase.
Villa-Lobos nunca pensou, nos Estados Unidos, muito menos em fazer carreira por lá, mas dava corda a alguns que insinuavam que ele estaria se bandeando para aquela parte fria das Américas.
Imaginem, Tom continuava, - tomando as dores do amigo: Villa-Lobos, comunista!… Também não tinha dinheiro nenhum. E não lhe fazia falta.
É claro que, numa conversa assim [entrevista dada a Roberto D'Ávila], era bem regada a um bom uísque e a um cubano autêntico.
Entrevista realizada na sala de Tom, no Rio, ao lado do piano e em meio ao caos que se instalara naquele ambiente: cinzeiros, caixas de charutos, garrafas de bebidas e um mundo de partituras, às quais ele mostrava e dizia: “por aí tem umas vinte músicas inéditas, todas de sucesso!!!”.
As janelas com vista para a floresta sempre estavam abertas, o canto do sabiá [inspiração para o clássico "Sabiá"] adentrando o ambiente. Mais conversa, fumaça do charuto e uísque do que música! Eu me identifico bastante com esse caos. E, perguntado sobre seu relacionamento com Frank Sinatra, ele açoitava: ótimo! Quando eu vou lá, todos me querem levar até ele e a outros, mas quando ele vem aqui, ninguém permite que ele venha me visitar…
Eu cá, às vezes, tinha espasmos de risadas com a forma como ele contava suas histórias. Ele sabia o peso que as palavras tinham, mas a forma doce de contar as histórias afastava o fardo. É o desgosto. Afirmava que o brasileiro odeia o brasileiro que faz sucesso, principalmente fora do país.
Inusitadamente, por mais de uma vez, em momentos de mais atenção, minha mente olfativa sentia aquele cheiro do charuto que exalava daquela sala, também o cheiro e o gosto daquele bom uísque.
E, nesses momentos, ficava divagando sobre quantas vezes fui tomado por esses momentos de sinestesia, principalmente ao sentir o perfume de uma mulher “interessante” que passa graciosa, senhora de si e além de mim.
Dos momentos em que as donzelas caminhavam naquelas tardes frescas, vento leve, cabelos esvoaçantes, harmonizando com o jeito de andar, o sorriso belo, uma natureza que tomava conta de toda a paisagem.
E eu, com meus delírios libidinosos, olfativos, saudosos de antigos encontros e desencontros.
É assim. São assim que me veem muitos dos meus momentos, lembranças e inspirações - quando sou acometido por um instante, que seja, de paz.
Todos os meus sentidos começam a funcionar.
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